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Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

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Aquilo em que me tornei

25
Mar17

A armadura anti-dor e o bullying


Hikarry

Até chegar ao 7º ano - hoje ando no 11º - eu sofri muito Bullying.

Bullying por ser baixinha, gorda, ter um bocado de dificuldade a andar por causa do meu peso e por causa dos meus dentes da frente, que eram negros, por causa de uma medicação que tomei quando era pequena que era muito forte e até hoje me traz mazelas como problemas de pele e ter os dentes muito frágeis - felizmente já não negros.

 

E, por causa disso, não gostava de ir para a o jardim de infância, nem para a escola e nem para o secundário e todos os dias para me convencerem a ir para alguns desses lados era um martírio.

Lembro-me que chorava muito quando vi-a o carro dos meus pais afastar-se quando me deixavam no jardim de infância com a auxiliar - que era a única amiga que tive até ter mais ou menos 8 anos - e quase chorar quando entrava na escola ou no secundário.

No infantário, não tinha amigos. A única pessoa que gostava de brincar comigo era a minha educadora de infância.

Na escola primaria, eu levava sempre o pão para comer lá antes das aulas começaram, porque eu era muito lenta a comer e então nunca consegui-a acabar de tomar o pequeno almoço em casa. Os miúdos chamavam-me gorda, feia e, às vezes, nos intervalos, o grupinho das raparigas populares e  grupinho dos rapazes populares juntavam-se numa roda à minha volta, a apontar para mim enquanto me insulavam e riam de mim.

Cheguei a receber cartas, que eram colocadas na minha mochila, a dizerem para me matar, para que ninguém tivesse que olhar para mim nunca mais.

Isso magoava-me muito; sempre fui uma menina muito frágil emocionalmente, e sempre que ia pedir ajuda a um funcionário, ele ainda se ria mais de mim.

Lembro-me perfeitamente do dia em que um rapaz me deitou ao chão e começou a dar-me pontapés. O meu lábio abriu e começou a deitar sangue, mas ninguém veio ao meu auxilio ou tentou para-lo. Quando ele parou e se afastou, levantei-me, a tentar conter as lágrimas, e fui até ao corredor onde estava uma funcionária, queixar-me.

Eu: O F deu-me chutos e pontapés...

Funcionária rindo-se que nem uma louca: Ah! Isso é uma banda!

E por ai ficou esse assunto. Só quando a minha professora me viu com o lábio rebentado é que alguém se preocupou em me perguntar o que tinha acontecido e tratar de mim.

Também me lembro de ser uma "pisca" a comer e, sempre que eu fazia birra porque não gostava de uma determinada fruta, um outro funcionário - que até hoje detesto e, por ironia do destino, hoje é padre - pegava em mim pelo braço e fechava-me na "casa da lenha" - um armário onde eles arrumavam a lenha para o inverno e que estava sempre infestado de aranhas e eu morria de medo de aranhas. Ele trancava-me lá, no escuro, até eu acabar de comer enquanto eu ouvia o resto dos miúdos a gozarem comigo do outro lado da porta.

E é por isso que eu não como banana, kiwi, ananás nem pêssego.

E depois começou o secundário...Fui para a escola "na cidade" e nem ai parou. 

Eu sempre tentei ser amiga de toda a gente, ser o mais simpática possível, mas o que me aconteceu no passado atormentava-me e agora - naquela época - sempre que eu chegava à escola, alguns miúdos juntavam-se na portaria e cuspiam em cima de mim.

Acho que esse foi o ultimo ato de bullying que sofri, porque o meu pai descobriu e foi fazer queixa ao diretor da escola.

Mas isso sempre me atingiu.

Para me proteger, tornei-me numa mentirosa compulsiva, agressiva, o que foi acalmando com os anos e parou totalmente quando conheci o amor da minha vida.

Quando a conheci, tornei-me uma pessoa feliz, sem magoas, já nem pensava mais no passado, mas a minha armadura, que fui ganhando com os anos, aparecia às vezes e assim eu acabei por magoa-la muitas vezes. Porque eu perdia o controlo quando essa armadura aparecia e ainda hoje perco.

Acho que esse é um dos maiores problemas que tenho tentado corrigir na minha vida.

Ela deixou-me, e eu voltei a ser aquela pessoa amargurada com tudo, só que 100 vezes pior; a minha armadora está On quase 100% do tempo e eu tento afastar toda a gente de mim, mas é algo que não consigo controlar.

O nosso passado condena-nos e o meu condenou-me demais, fazendo-me perder uma das pessoas mais importantes da minha vida por causa daquela armadura que fui construindo durante todos estes anos para me proteger.

Mas eu estou a tentar que o meu passado não me vença e alcançar o meu sonho demore o tempo que demorar.

O importante é nunca desistir...E eu nunca vou desistir.

 

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    Uma boa comédia diária

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    Olha que isso é que era uma ideia de valor!

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