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Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

10
Fev21

"Guess who's back" e outras explicações


Angeline

Imaginem-me a entrar de fininho numa sala cheia de gente, quase colada à parede numa esperança que ninguém repare que cheguei atrasada ou que estive desaparecida durante toda a reunião, fechada na casa de banho a beber café e a chorar baixinho.

É assim que me sinto.

Estava eu a dizer que ia voltar e “desta vez é que era”, e acabei por desaparecer novamente. Podia apontar o dedo a muita coisa, mas não o faço. A única esperança que tenho é de haver por aí ainda alguma alminha à minha espera depois deste tempo todo e curiosa com o que tenho para dizer.

A ultima vez que aqui estive foi em setembro do ano passado, mas parece-me que foi quase há 20 anos. Passou o Halloween, a minha chegada aos 20, o Natal, o Ano Novo e o aniversário de 4 anos do blog. Tenho vergonha? Tenho, mas agora estou aqui. E nem sei bem por onde começar.

A minha mãe já foi operada no inicio do mês. Arrancaram-lhe o estomago por completo e agora está a recuperar, ainda á espera de ser chamada para as próximas sessões de quimio. Tem dores, mas já anda de um lado para o outro como se pudesse. Já manda tal capataz e come coisas que não deve pelas costas do meu pai. Má sorte a dela que a apanho sempre com a boca na botija.

Já se lá foi mais um semestre na faculdade. Estamos a 5 dias de começar o próximo e eu nem sei bem em que buraco me meter.

Desde o inicio do primeiro confinamento (princípios de março, dia 9 para mim, mais propriamente), a minha saúde mental veio a degradar-se rapidamente. Tinha deixado de frequentar as minhas consultas na psicóloga possivelmente a outubro ou novembro de 2019 e lá andei eu durante menos de meio ano a pensar que estava bem. Quando me mudei definitivamente para Coimbra também deixei, voluntariamente, de ir à psiquiatra e deixei de tomar todos os meus antidepressivos e afins.

Se arrependimento matasse.

Eu realmente achava que estava bem.

A dor de amor passou. Já mal me tocava.  E agora é praticamente nula.

Tinha saído do ambiente toxico que era a casa dos meus pais e tinha, finalmente, um espaço só meu coma minha própria paz.

Estava a estudar algo que gostava depois de 4 anos presa num percurso escolar que detestava.

Estava a fazer amigos.

O que eu mal sabia na altura é que tudo isso, por mais verdade que fosse, não era o que me estava a fazer sentir melhor. Eu estava a mentir-me a mim própria.

Eu vi os sinais.

Sai-a a chorar das aulas de italiano. Sentava-me no chão do quarto sem qualquer força para o que fosse ou num pranto desalmado. Isolava-me do mundo. Mas eu vi-a isso como normal. Que eu estava bem. Que era normal. Que era do cansaço. Mas não era.

Só foi preciso voltar a ficar fechada em casa naquele mesmo antigo ambiente do qual eu pensava ter finalmente escapado, para todas as nuvens que eu tinha colocado no céu caírem aos meus pés.

Mas lá se passou o confinamento. Voltei para a faculdade para aí no dia 15 de outubro e pensei, novamente, que estava bem. Foi quando liguei à minha colega de casa às 2 da manhã de uma quinta feira, num pânico descontrolável - Um completo mental break down – que me apercebi, realmente, que não estava bem. Nada bem.

No fim de semana seguinte, quando voltei para casa na terrinha, queria pedir ao meu pai para voltar às consultas com a minha psicóloga.

Ele é…um homem complicado. Ainda vê problemas de foro mental como uma tolice. E, embora ele pense que sim, ele não me conhece. Ele não sabe o que vai cá dentro. Desconhece a maioria da minha vida, dos meus amigos, dos meus pensamentos e sentimentos. Então eu tinha medo de lhe pedir isso. Seria mais dinheiro a sair do bolso. E, tendo a minha mãe sido diagnosticada com cancro no estomago à menos de meio ano, não queria que eles pensassem que eu estava a tentar chamar à atenção. Que eu estava a tentar colocar-me à frente da minha mãe.

Falei com a minha avó. Ela disse que me ajudaria, que pagaria as minhas consultas, mas que eu tinha que falar com o meu pai. Não me lembro exatamente como foi. Só sei que chamei pelo nome dele e, quando ele se virou para me encarar e eu estava prestes a abrir a boca, comecei a chorar.

“Quero voltar para a psicóloga.”.

Era uma frase simples e rápida, mas que me custou a sair.

“Eu preciso da minha psicóloga.”

Uma frase que não é muito diferente da primeira, mas que me saiu com mais urgência e com um certo desespero que, no fundo, era o que eu sentia. Eu estava desesperada por ajuda. Eu precisava de algo. De alguém que me arrancasse de dentro de mim mesma. Que me salvasse ou que me ajudasse a faze-lo. Que colocasse uma luz dentro do mar de trevas em que a minha cabeça se tinha tornado. Uma mão.

Por surpresa minha, ele não disse nada contra. Até se ofereceu para me levar às consultas.

Então, desde o dia 30 de outubro, voltei às consultas. Mas não tem sido fácil. Ela avaliou-me durante duas sessões e, durante ambas, eu ou estava completamente estoica, ou começava a chorar. O que já era usual para ela. Já da primeira vez em que lá andei, de 2017 a 2019, o mais usual era eu mal conseguir abrir a boca e falar qualquer coisa que fosse porque estava sentada no chão, a chorar como se me estivessem a cortar ao meio enquanto ela se sentava ao meu lado, um braço à minha volta a tentar amparar uma alma desgraçada. Bem, desta vez, eu não chorava pela mesma razão. Já não era a minha ex nem a dor que ela me causou durante todos aqueles anos que me agonizava. Eu nem sabia o que era.

“Angeline, a tua depressão piorou. Atrevo-me a dizer que está pior do que em 2019.”

“Pior? Não sinto que esteja pior.”

“Antes tu deitavas tudo cá para fora. Choravas. Gritavas. Falavas. Agora estás a reprimir. Reprimes tanto e sem te dar conta que tudo se mistura e não sabes de onde a dor vem. Estás num poço muito mais fundo do que antes.”

Depois de pensar que a minha depressão tinha acalmado e eu estava a ficar 5 estrelas, levar com estas frases não foi fácil. Embora eu soubesse que fossem a realidade.

No dia do meu aniversário, 19 de novembro, senti-me sozinha. Estava no meu quarto, mas parecia que estava mergulhada em água escura. Sentia-me sufocada. Abandonada. Recebi uns 3 “felizes aniversários”. Não que eu estivesse há espera de mais. Não sei explicar. Senti-me…nem sei. Nesse mesmo dia, recebi a noticia que a minha madrinha também tinha cancro, quando estava a sair de casa para ir ter com o P – o meu tio de praxe. Foi mais um golpe que eu tive que engolir enquanto pegava na capa negra do traje universitário e a metia aos ombros. Ia finalmente traçar a capa e não podia deixar que esse momento fosse arruinado.

Diverti-me imenso, embora o P me tivesse deixado na rua à espera dele durante quase 1 hora.

Voltámos para casa às 11 da noite. Como somos vizinhos, o P acompanhou-me a casa. Estávamos a caminhar e a falar, mas eu sentia-me quase anestesiada, como se nem estivesse bem ali.

Quando chegámos às escadas do meu prédio, disse-lhe um pequeno “tchau” e virei-me para ir embora, mas ele agarrou-me no braço.

“Estás bem?”

Ele e a B – a minha madrinha de praxe – são os meus amigos mais próximos em Coimbra, mas nenhum de nós costumava falar sobre coisas muito sérias uns com os outros. No máximo estive ao telemóvel com o P durante 2 dias seguidos depois de ele acabar com a namorada dele.

Não sou de pedir ajuda. Não gosto que as pessoas tenham pena de mim, gosto de resolver tudo sozinha e tenho a terrível mania de pensar que estou sempre a chatear, por isso nunca me chego a ninguém quando estou mal. E essas duas palavras foram o suficiente para ligar as cascatas oculares que eu tenho internamente, aparentemente.

Ele tirou-me os óculos, meteu-os em cima da caixa do correio ao nosso lado, colocou os braços por baixo da minha capa e abraçou-me. Estive a chorar e a falar durante quase 2 horas. Senti-me melhor depois disso? Não. Quando subi até ao meu apartamento, arrependi-me de tudo o que disse e da figura que tinha feito à frente dele, mas não havia como voltar atras.

Na manhã seguinte, liguei à minha psicóloga. Expliquei-lhe o que me aconteceu e ela aconselhou-me a não terminar o semestre. Já tinha feito 2 exames - tinha mais 3 para fazer – para os quais eu não estava minimamente preparada, mas ela disse-me para fazer uma pausa. Tirar dezembro e janeiro para colocar a cabeça em ordem. Deixei de ir à faculdade uma semana depois. As notas dos exames que fiz foram boas, mas ela tinha razão. Eu não estava com a cabeça no sitio certo para o que fosse.

Agora, estamos num novo confinamento. E parece que nas ultimas 2 semanas tenho vindo a piorar.

O choro permanece constante, estou sempre a tremer, sinto-me presa. Quero escapar para longe daqui, mas não sei para onde nem como. Tenho esta voz irritante na minha cabeça que não me deixa descansar.

“Quero ir embora.”

“Quero fugir.”

“Atira-te da varanda.”

“Quero morrer.”

“Não quero estar aqui.”

“Atira-te para a frente do próximo carro que passar.”

“Deixem-me ir embora.”

“Preciso de descanso.”

Não há para onde fugir quando o teu carrasco está preso dentro da tua própria cabeça.

É um sufoco constante. Sinto como se a minha cabeça estivesse constantemente debaixo de água e sempre que tento vir á superfície para respirar, não há oxigénio ao redor.

Mas, bem…tenho combatido tudo isto da melhor maneira que posso.

Voltei a escrever; tanto para aqui – já tenho mais posts programados – como as minhas historias. Li vários livros durante este tempo e já vos deixo uma foto com os ditos-cujos no final do post. Decidi reensinar-me a tocar piano. Ando a desenhar mais. E é isso.

Tudo isto para dizer que estou de volta e que é bom estar de volta!

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