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Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

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Aquilo em que me tornei

12
Mar17

O dia em que fui ao circo e um dos meus traumas


Hikarry

Acho que a primeira e a ultima vez que fui ao circo foi à 6 anos atrás e eu adorei.

Não me lembro de grande coisa; por mais estúpido que pareça, o que mais me ficou na memoria foi o meu pai a pagar pelos nossos bilhetes enquanto eu, pequenita  - não que eu seja muito grande, porque só cresci 6 centímetros desde essa altura - com as minhas mãos no parapeito da janela da senhora e em bicos dos pés a tentar espreitar para dentro da cabine azul onde ela estava. Tirando isso, só me lembro da parte em que um camelo entrou e quase que se ia esbardalhando no palco.

Ah, e claro: o palhaço.

 

Eu e os palhaços, desde sempre, tivemos uma relação muito complicada e eu já proibi os meus pais de comerem um belo hambúrguer por causa de um.

Ora bem, muita gente tem medo de palhaços - eu sei - mas muitas não se lembram do porquê; só sabem que o têm e eu, infelizmente, lembro-me perfeitamente de um dos maiores traumas da minha vida.

Eu tinha 2 anos, - sim, eu tenho memórias muito antigas, principalmente de traumas - estava confortável no meu carrinho de bebé, possivelmente a morder alguma coisa - porque desde miúda que tenho essa mania - enquanto o meu pai empurrava o carrinho por entre uma feira que estava a haver em Seia; estávamos acompanhados pela minha mãe e pelos meus avós paternos. Eu estava tão feliz como um pequeno bebé de 2 anos pode ser até que passa por cima de mim um palhaço enorme - aqueles que estão em cima de antas que os deixam muito muito altos.

Eu não sei se eles estavam assim TÃO altos como a minha mente se lembra - possivelmente não - mas quando um se inclinou para falar comigo...o trauma começou. Eu lembro-me de chorar até não poder mais e foi aqui que apanhei o meu medo gigante por palhaços.

Outra experiência que eu tive com palhaços - a tal dos hambúrgueres - aconteceu quando eu tinha 4 anos. Os meus pais tinham ido comigo passar uma semana a casa da minha tia que mora na Azambuja e eles tiveram a grande ideia de irmos ao McDonald's, porque aqui esta gorda sempre adorou um bom McBifana...mas qual não foi o meu espanto quando o meu pai estaciona o carro perto da entrada do estabelecimento e mesmo ao lado da porta de entrada estava um boneco do Ronald McDonald - ou seja, um palhaço, procurem no google se não sabem do que estou a falar - e, nas minhas memorias, ele está com um rosto a assustador a olhar para mim, mas com certeza que na vida real ele estava com a sua típica cara sorridente e simpática. Mas, voltando ao foco do assunto, aqui a pirralha começou a ter um ataque de pânico - acho que foi o primeiro de muitos que tive em toda a minha vida - e recusei-me a sair do carro, chorando aos altos berros obrigando os meus pais e os meus tios a mudarem de planos e acabamos por ir comer a casa.

Antes de eu voltar a falar sobre essa minha visita ao circo e contar a minha experiência com esse tal palhaço desse tal circo, ainda aconteceu mais uma experiência que me faz sentir muito mal sempre que me lembro dela.

Era a inauguração do MiniPreço na cidade mais perto da minha terrinha e os meus avós levaram-me lá porque queriam ver como era o espaço. Quando entrámos, não houve problema nenhum; fizemos algumas compras e, quando chegámos à caixa e eu olhei para a porta de saída, o meu corpo congelou.

Estava lá um rapaz com os seus 20 e poucos anos vestido de palhaço junto de uma maquina de pipocas a encher uns balões.

Eu agarrei-me ao braço da minha avó aflitinha de medo e quando passámos junto do rapaz, ele aproximou-se de mim e estendeu-me a mão, para eu a apertar, com um sorriso muito simpático na cara - segundo a minha avó, porque na minha cabeça ele estava com um sorriso assustador - e eu sai do MiniPreço a correr em direção ao jipe dos meus avós e tranquei-me lá. Os meus avós ainda demoraram muito tempo a vir para o carro, mas, quando eles saíram, a minha avó vinha com um balão em forma de flor na mão. Abriu a porta do lado onde eu estava, deu-me a flor e disse "Aquele senhor fez isto para ti. Ele ficou triste porque não te queria assustar. Ele disse que eras uma menina muito bonita e que foi um prazer conhecer-te.". No momento ainda pensei em sair do carro e dar um abraço ao homem, mas o medo foi maior então não fiz nada, mas se fosse hoje, eu não pensaria duas vezes. Esta lembrança derrete-me o coração.

Senhor palhaço de 20 e poucos anos, que agora deve ter uns 30, e que me ofereceu uma flor, se alguma vez ler isto, muito obrigada

Agora, voltando ao circo.

A entrada do palhaço foi espetacular.

As luzes todas apagaram-se por uns segundos e depois acendeu-se um holofote que estava a iluminar uma espécie de penteadeira preta com luzes à volta do espelho - como se vê nos bastidores dos filmes de cinema - e um banquinho preto. Uma musica triste começou a tocar e um rapaz com uns 20 anos - também - entrou para a arena e sentou-se no banco, começando a maquilhar-se com a típica cara branca de palhaço e um sorriso enorme e foi ai que se fez um "click" na minha cabeça: aquele e os outros palhaços eram apenas artistas, como os meus amados atores; pessoas que só estão ali para fazer o seu trabalho, para entreter. E, talvez por sentir aquela conexão com a parte de, de certo modo, eles serem atores, ou por outro motivo qualquer, eu deixei de ter esse trauma e agora até lido minimamente bem com palhaços - até porque eu, até à uns dois anos atrás, tentava ser a palhaça dos meus amigos.

Mas esses tempos já foram e essa palhaça já se sentou na penteadeira e tirou a maquilhagem de vez.

 

4 comentários

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  • Nuno

    Pois era! :)

  • Hikarry

    Uma boa comédia diária

  • Hikarry

    Ahah é espantoso o que se encontra por ai!Obrigada...

  • Hikarry

    Rir? Certamente. Também acho que é para isso que s...

  • Hikarry

    Olha que isso é que era uma ideia de valor!

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