Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

19
Mai20

O que será o "consentimento"?


Hikarry

Não sou uma expert da mente humana (extremamente longe disso), mas gosto de fazer notas mentais de coisas que ouço e, muitas vezes, coisas que vivo e que parecem “normal” para certas pessoas. Sou eu que sou anormal ou é o mundo que está estranho? Uma das coisas que eu mais noto é a teimosia em aceitar um não e conseguir perceber que um sim é um sim e um não é um não e não um “desafio-te a mudares-me as ideias”.

Vamos a uns exemplos, shall we?

Na fila para as inscrições da faculdade comecei a falar com o rapaz que estava à minha frente (vamos chama-lo…BundaAddict) que, por coincidência, era do mesmo curso que eu. Ele era um bocado estranho, mas foi a primeira pessoa que conheci ali e eu (parva) tentei ignorar os meus instintos e comecei a a criar uma espécie de amizade com ele.

Saímos varias vezes e ele costumava fazer vários comentários que me deixavam desconfortável e, possivelmente, o que ouvi mais foi: “Tens um rabo fantástico. Só me apetece agarra-lo e fazê-lo meu!(percebem o nome agora?). Eu ria (porque era parva e ingénua e pensava que era uma brincadeira), mas pedia-lhe para parar. E vocês dizem “Ah e tal, mas é um elogio. Tu também és cá uma esquisita!” Eu e o Bunda Addict só nos conhecíamos à 1 semana! E, mesmo que nos conhecêssemos à 3 anos: se uma pessoa te diz para parar e te diz que está desconfortável, tu paras. Pronto. Finito.

Eventualmente, ele pediu desculpa e disse que ia parar e, realmente, parou. Durante uma semana.

Ele veio à minha casa. Estávamos no meu quarto a ver um filme para um trabalho no pc dele. Eu estava sentada na cadeira da secretaria e ele estava sentado na beira da cama, um pouco atrás de mim. O filme acabou e eu levantei-me para ir buscar uns apontamentos quando, de repente, ele agarrou-me pela cintura e atirou-me para a cama, vindo para cima de mim.

As minhas mãos começaram a tremer enquanto eu o tentava empurrar e dizia “não” e “para”.

O telemóvel dele tocou. O pai dele estava lá em baixo para leva-lo à faculdade e tratar não sei de quê.

Ele saiu de cima de mim, disse “volto depois” e foi embora.

Não sei quanto tempo se passou, mas, na minha cabeça, desde ele sair de cima de mim até eu ouvir a porta da casa a bater pareciam ter passado 2 segundos.

Comecei a ter um ataque de pânico. O meu primeiro instinto foi mandar mensagem ao meu ex (atualmente um dos meus melhores amigos) porque eu precisava de falar com alguém, de sentir que estava com alguém mesmo que não estivesse e ele sempre me fez sentir segura. Ele não respondeu logo, porque estava em aula, mas eu precisava urgentemente de um “logo” então mandei mensagem a mais uma mão cheia de pessoas até a minha colega de casa me responder. Ela, que já estava a voltar, apareceu dentro de minutos e, pouco tempo depois, a campainha tocou. Era o Bunda Addict. Ele ligou-me, mandou mensagem e gritou o meu nome lá de fora. Comecei a tremer enquanto ouvia a minha colega de casa abrir a porta, descer até à entrada do prédio e manda-lo embora.

Nós tínhamos 2 cadeiras juntos. Escusado será dizer que fiquei com medo de ir a ambas, mas, depois de 2 dias a faltar, decidi engolir o medo e fazer frente. Sentei-me com uma amiga e ele sentou-me mesmo atrás de mim. A meio da aula, a minha amiga teve que ir embora e, mal ela se levantou, ele sentou-se ao meu lado. Continuei a olhar para a frente e a tentar manter-me calma quando senti a mão dele na minha coxa. Sacudi a mão dele, mas ele voltou a tocar-me na coxa, ainda mais em cima, e apertou-a. Assustada, levantei-me e escondi-me na casa de banho. Dois dias depois consegui mudar de turma nessa cadeira.

Passou uns 2 dias a mandar-me mensagens um pouco…inapropriadas até eu o bloquear.

No dia seguinte, estava eu a sair da faculdade quando ouvi alguém a chamar o meu nome. Olhei para trás e era ele. Comecei a andar mais depressa e, já a meio do caminho de casa, ele ainda estava atrás de mim. Mudei de passeio duas vezes e ele imitava-me. Comecei a suar e os meus olhos a lacrimejar até eu sentir um braço à volta dos meus ombros. Quase que tive um colapso cardíaco antes de perceber que era o meu tio de praxe que acabou por me acompanhar até casa.

O rapaz nunca mais se meteu comigo, por divina graça do espírito santo. Mas ainda me dá uns suores frios quando o vejo nos corredores da faculdades.

Durante quase um mês vivi em medo e quase desisti de algumas cadeiras por causa dele. Isto foi 1 mês. Imaginem aquelas pessoas que vivem isto, ou pior, quase a vida toda. Tudo porque há gente que não compreende o que é um “não” e porque, muitas vezes, ficamos toldados pelo medo.

Ah, mas a culpa é tua! Tu deste-lhe confiança!” Pois dei! E fui muito, muito parva! Mas, independente disso, um não permanece um não. Se um consentimento não é dado, não se deve avançar.

O meu exemplo é longo, mas até em historias mais curtas e genéricas como: “Ela/e estava bêbeda/o.”,  "Ela/e disse que sim no inicio! Lá no meio é que disse que não!” “Ela/e disse que sim ontem, hoje é que está a dizer que não!”. Em algum desses casos há consentimento? Não. Em nenhum dos casos.

Acredito que numa relação minimamente saudável (seja amizade ou o que for) se um dos lados pedir para parar, por qualquer que seja o motivo, o outro, por lógica, não deveria forçar. É um direito mudar de ideias, seja no dia seguinte, na hora seguinte ou no segundo seguinte.

Metes-te te a jeito!

Estavas a pedi-las!

Foste ingénua!

Não consigo entender porquê, mas a culpa parece cair sempre sobre o abusado e não sobre o abusador.

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Nuno

    Pois era! :)

  • Hikarry

    Uma boa comédia diária

  • Hikarry

    Ahah é espantoso o que se encontra por ai!Obrigada...

  • Hikarry

    Rir? Certamente. Também acho que é para isso que s...

  • Hikarry

    Olha que isso é que era uma ideia de valor!

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D