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Little Crushed Heart

Aquilo em que me tornei

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Aquilo em que me tornei

25
Mar20

Teorias sobre o bem e o mal


Hikarry

Eu já torturei uma borboleta.

Ainda não estava completamente morta - por isso é que lhe chamo de tortura -, mas já estava em mau estado. Tinha-a encontrado numa das arrecadações dos meus avós. No chão. Espezinhada. Mas as anteninhas ainda mexiam, por isso eu sabia que ainda estava viva. Eu tinha 4 ou 5 anos. Peguei nela, meti-a em cima de um banco de plástico e arranquei-lhe as asas. Não satisfeita, arranquei-lhe as antenas e cortei-a aos bocados com uma daquelas facas de plástico que as vezes vinham com os nenucos.

Para quem vê muitos documentários sobre serial killers, isto pode ser um indicio de psicopatia e, quem sabe, talvez eu seja. Afinal, a maioria dos serial killers nasceram em novembro, tal como aqui a vossa lady que vos fala.

Mas eu arrependi-me.

Depois de tudo aquilo, olhei para as poucas coisas que restavam do bicho e arrependi-me amargamente. Fiquei com um peso no coração e fui a correr contar à minha avó o que tinha feito, na esperança de ela resolver a situação, mas não havia nada a fazer.

No ano seguinte encontrei um pássaro no terraço dos meus avós com uma asa partida. Podia ter-lhe feito o mesmo: arrancado as asas e por aí a diante, mas não o fiz. Peguei nele, mostrei à minha avó e ambas cuidámos dele até voltar a voar e ir embora.

Nesse mesmo ano o casal de pássaros da minha avó foi envenenado pelos nossos vizinhos e deixaram um ovo para traz. Com o coração pesado e a ingenuidade típica de criança, pensei que o conseguiria chocar ao mete-lo entre algodão. Não resultou, mas eu tentei.

Embora eu nunca mais tenha magoado um animal desde o incidente da borboleta e só ter um desejo enorme de magoar os animais de duas patas que magoam os nossos companheiros patudos, às vezes ainda me lembro do episódio da borboleta. Já está tão longe, mas de tempos em tempos acaba por voltar. É assim que o meu cérebro funciona. Embora eu queira esquecer, o maldito regista em tinta permanente todo e qualquer erro. Por causa disso, às vezes fico acordada a dar voltas na cama sem conseguir adormecer. Já não por causa da borboleta, mas por causa de outros episódios que eu nunca vou conseguir concertar ou por palavras que eu nunca vou conseguir desdizer. Ás vezes até choro desalmadamente em baixo dos lençóis, sem saber bem porquê porque o mal já está feito. Não dá para resolver. É uma tortura que eu faço comigo própria, o mau é que eu não tenho nem asas nem antenas para arrancar. Tenho que ir pela via psicológica e sou mestre nisso.

Considero-me uma pessoa boa. Com uma boa consciência. Mas aquele episódio da borboleta (e até outros, que não são tão na categoria do assassinato) fazem-me perceber que, como diziam os reclames da Zonhá uma linha que separa” e essa linha é extremamente fina. É extremamente fácil ultrapassar essa divisão do bom e do mal, tal como a linha da dor e do prazer.

Mas, bem, isto também só são teorias de uma miúda que não percebe nada disto e vê demasiados documentários sobre a Segunda Guerra, aliens, gente desaparecida e Serial Killers.

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Comentários recentes

  • Nuno

    Pois era! :)

  • Hikarry

    Uma boa comédia diária

  • Hikarry

    Ahah é espantoso o que se encontra por ai!Obrigada...

  • Hikarry

    Rir? Certamente. Também acho que é para isso que s...

  • Hikarry

    Olha que isso é que era uma ideia de valor!

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